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sexta-feira, 21 de julho de 2017

Azenhas do Mar, um presépio com sabor a sal


Finistérrica falésia junto à mata atlântica, as Azenhas do Mar são um presépio branco com cheiro a pinho e sabor a sal, com a serra de Sintra vigiando as disciplinadas águas migrando para o Grande Oceano, polvilhado por alvas casas debruadas a azul, e adornado promontório de urze e pinho patrulhado por corvos e gaivotas rasgando os céus desafiadores.
Encavalitada nas rochas, outrora terra de rainhas, muitas a procuraram no passado, com destaque para a festejada visita de D. Luísa de Gusmão em Julho de 1652, ou as estadias de Maria Pia e D. Amélia em tempos mais recentes. De S. Lourenço é devota, como o atesta a singela capela, cuja galilé destruída em 1966 foi restaurada em 1995, anualmente celebrado nas festas do mês de Agosto, a celebrar a fé de pescadores e das gentes do campo, desse campo de chão quente e arenoso onde desde tempos imemoriais emerge o ramisco, talhado pelas mãos generosas e sábias de homens bons abrindo covas, trabalhando o vime e no seu chão argiloso depositando as cepas e bacelos donde frutificará o néctar que aquecerá a alma e saciará a sede.
Se o casario se perde na noite dos tempos, é no século XX que as Azenhas do Mar surgem como postal dum Portugal suave e laborioso lavrando os campos, partindo para a pesca ou tratando as vinhas. No princípio do século, em 1920, ali constrói Raul Lino a sua famosa Casa Branca ou do Marco, exemplar singular duma arquitectura despojada em diálogo com a natureza, feita de silêncios e sensações, sem água nem luz eléctrica. E é decorrente do trabalho da Comissão de Melhoramentos das Azenhas do Mar que em Agosto de 1927 se inicia a construção da emblemática escola primária, projecto de Amílcar Pinto, Jorge Segurado e Frederico Carvalho apadrinhado pelo então ministro da Instrução Pública Alfredo de Magalhães e inaugurada dez meses depois, em Junho de 1928 pelo presidente Carmona. É um período áureo das Azenhas do Mar, impulsionado por figuras como Emílio Paula Campos, aguarelista e escultor, ali residente desde 1910, e um dos entusiastas da construção da piscina oceânica, da escola, ou da estrada para Janas, e em cuja casa se alojou Leal da Câmara ou um ainda jovem Júlio Pomar, casa da qual fez um museu que funcionou entre 1945 e 1970, e cujo espólio está hoje a salvo, também por acção de seu sobrinho e grande figura das Azenhas, recentemente desaparecido, o arquitecto Francisco Castro Rodrigues.
É desse período o filme de Artur da Costa Macedo “A Praia das Maçãs e as Azenhas do Mar”, estreado no cinema Condes em 28 de Agosto de 1928, bem como a  abertura duma carreira de autocarros da Auto Sintrense em Março de 1930, e a extensão do eléctrico da Praia das Maçãs até às Azenhas nesse mesmo período, facto celebrado de forma insólita. Sendo voz do povo que o eléctrico só chegaria às Azenhas quando o chafariz deitasse vinho em vez de água, do chafariz de Vila Chã, construído em 1893 por influência de Luís Colares, inaugurado em 1894 e remodelado por Paula campos em 1928, mais conhecido pelo Arcão, promoveu o grande filantropo Alberto Totta, mesário da santa Casa e um dos fundadores da Adega Regional de Colares, a canalização através do dito chafariz de barris de vinho de que milagrosamente todo o povo se saciou, havendo mesmo o relato de um tal Jacinto que terá emborcado nada menos que vinte e oito copos… 
Regista-se igualmente em Maio de 1945 a fundação da Orquestra Beira Mar, num período pujante de vilegiatura burguesa impulsionada pela propaganda do Estado Novo e pela propagação dos chalés português suave duma burguesia a banhos, dispersa entre Sintra e os Estoris.
As Azenhas do Mar são terra de vinho e de néctares. Em 1848 Luís Augusto e Manuel José Colares fundaram a Adega Beira-Mar e em 1899 João, António e Hermenegildo Bernardino da Silva a adega Chitas, produtora do Collares Chitas, e desde 1900 do afamado Beira-Mar.

Dos 22 fogos registados em 1815 até hoje, as Azenhas, felizmente, pouco cresceram, alvas testemunhas do labor dos Homens e do poder do Mar. Registada na Conta-Corrente de Vergílio Ferreira ou na Viagem a Portugal de Saramago, incensada por viajantes que nela vêm uma Santorini do Atlântico, será de toda a justiça que lhe seja atribuído mais um galardão público nestes tempos de afã mediático, cientes de que as ondas continuarão a fustigar a rocha, o sol continuará a brilhar sobre o casario e na noite dos tempos o promontório altivamente guardará este seu ninho.

quarta-feira, 19 de julho de 2017

7 Maravilhas de Portugal: Vote Azenhas do Mar!

 
  
Azenhas do Mar é uma aldeia do litoral sintrense com 451 habitantes e uma das 7 finalistas na categoria aldeias de mar do Concurso 7 Maravilhas de Portugal, cuja final decorrerá dia 3 de Setembro.
Aqui veio a rainha D. Luísa de Gusmão, passaram férias o rei D. Carlos I e as rainhas D. Amélia e D. Maria Pia. Muitos arquitetos do século XX aqui implantaram as suas criações, como Raul Lino, Norte Júnior e outros, sobre ela escreveram Vergílio Ferreira ou José Saramago.
Lugar inspirador para pintores como Emílio Paula Campos, Júlio Pomar, Alfredo Keil e tantos outros, foi ainda estância dilecta de cineastas como Perdigão Queiroga, Beatriz Costa ou Carmen Dolores.
A sua Capela de São Lourenço data dos finais do séc. XVI e está integralmente restaurada. A Escola, construída em 1927, e inaugurada pelo Presidente Óscar Carmona, serviu de modelo para a filosofia dos edifícios escolares do Estado Novo.
A História imensa das Azenhas do Mar, aliada à sua beleza natural, com o casario a descer em cascata falésia até ao oceano, confere-lhe um cenário de “belo terrível”, tão ao sabor do gosto romântico.
 No dia 23 de Julho, dia da gala que terá lugar nas Azenhas do Mar a partir das 21h, vote nas Azenhas do Mar logo a partir das 11h da manhã. A votação é por chamada telefónica e o número para votar é facultado no início das galas.Vote quantas vezes lhe apetecer para sermos a aldeia mais votada e marcarmos presença na final, no dia 3 de Setembro.

terça-feira, 18 de julho de 2017

Reflectindo sobre a minha freguesia em ano eleitoral- I

A proximidade das eleições autárquicas leva-me a pensar na extinção da histórica freguesia de S. Martinho, em Sintra, onde resido, trabalho e cuja história já registei em livro em parceria com Daniel André.

A extinção da freguesia, por agregação com Santa Maria e S. Miguel e S. Pedro de Penaferrim, centralizando a sede da nova União das Freguesias de Sintra em Santa Maria e S. Miguel, constituiu um acto impensado e atentatório da vontade dos seus fregueses, que, no mínimo, deveria merecer a consideração de uma justificação adequada, decorrente de estudos sérios e participados que levassem a essa conclusão, e que fosse objecto de auscultação da população, pela pronúncia favorável dos seus órgãos próprios ou pela convocação de um referendo local. Deveria ser assim, nas democracias. Nesta não. Até porque não foi dada a oportunidade de exercer o contraditório, por audiência aos interessados, apenas tendo havido pronúncia das assembleias de freguesia pela não extinção ou agregação em abstracto. Coisas que um tal Relvas em dias da troika teceu.

S.Martinho, da Vila a Janas e de Galamares a Nafarros, construiu uma identidade ao longo de décadas em torno das suas festas, símbolos, colectividades e património. A ela se dedicaram autarcas como Noel Cunha, Álvaro Ramires, João Pedro Miranda, Adriano Filipe ou Fernando Pereira, nela se situam várias das instituições emblemáticas de Sintra. Com os anos, foi das poucas freguesias que viu a população crescer, ampliou e modernizou instalações e serviços e dinamizou a acção social, pelo que o mínimo exigível seria o reconhecimento do trabalho feito por autarcas de várias cores mas com uma só camisola. Com a agregação, que muitos contestaram mas hoje já esqueceram, não foi S.Martinho quem mais perdeu, foi Sintra, o poder local e a democracia. Não por medo do "outro", dos actuais dirigentes, das freguesias vizinhas ou da perda de identidade, mas, sobretudo, por a voz do seu povo ter sido abastardada e tratada como vã e inútil. Quem subestima o povo tarde ou cedo lhe ficará às mãos (ou aos votos...).A saga continua, e por vezes a História repete-se, quem sabe.

A União das Freguesias de Sintra constitui uma idiossincrasia própria concentrando no seu vasto território uma amostra do actual tecido sintrense, englobando a Sintra histórica e romântica, a zona rural e alguns bairros marcadamente urbanos, onde a própria sede do concelho se inclui.

Aos próximos autarcas compete respeitar e dar voz ao sentir de 3 comunidades que, sendo contíguas, desenvolveram contudo um forte espírito comunitário ao longo dos anos, pelo que ouvir e decidir com parcimónia terá de estar sempre presente no comportamento dos eleitos, reafirmando autonomia e capacidade reivindicativa perante a Câmara e as entidades que nela se atravessam, buscando equidade e sustentabilidade nas decisões, e assegurando a participação efectiva da comunidade nos assuntos que lhe dizem respeito, sem preponderância de alguma das anteriores freguesias ou seus problemas sobre as restantes.

Turismo, Agricultura, Cultura, Serviços, a melhoria e reforço da Rede Social, são vectores determinantes no caminho a seguir. Aqui deixo algumas sugestões que, enquanto cidadão e munícipe, e também como dirigente associativo, me afiguram ser tarefas a desenvolver, com os meios disponíveis ou partilhados:

-Dar um impulso determinante de ordem política no sentido de requalificar e terminar o processo de reconversão de algumas áreas urbanas de génese ilegal ainda existentes na nova freguesia.

-Melhorar de forma significativa a limpeza de ruas e bermas, pressionando as empresas que operam na freguesia e reforçando os meios próprios e a sua frequência. Combater de forma eficaz o problema dos “monstros” anarquicamente lançados nas bermas, com sanções em consonância.

-Utilizar de forma eficaz e útil os diversos edifícios ora adstritos às anteriores juntas, aí alojando serviços públicos, sociais ou culturais com impacto na vida das populações, e nos sectores onde se mostre mais premente.

-Criar no âmbito da junta mais e melhores serviços de apoio social, jurídico ou de apoio ao investimento, que, por si ou em articulação com outras entidades possam agilizar procedimentos e ser uma linha avançada na resposta aos fregueses e investidores.

-Equacionar quais os serviços que devem continuar a ser executados pela junta e aqueles que possam ser pela Câmara Municipal nesta delegados, sempre acompanhados do respectivo envelope financeiro e recursos humanos, numa óptica de proximidade (a ligação com as escolas do ensino básico, as associações culturais e desportivas ou as associações de idosos, lares e centros de dia, por exemplo).

-Abrir um debate público em torno das questões da mobilidade urbana, trânsito e transportes, no qual se questione a manutenção do actual esquema de ruas pedonalizadas, a localização dos parques de estacionamento e a sua natureza paga ou gratuita, ou a carência de transportes públicos na freguesia depois das 21h.

-Procurar resposta para alguns casos patológicos de degradação de património e da paisagem, como o Sintra-Cinema, o Casal de S. Domingos ou a Quinta do Relógio, bem como diligenciar no sentido de certas urbanizações já iniciadas não ficarem ao abandono, como parece estar a ocorrer em Monte Santos.

-Providenciar espaço para as actividades das associações e agentes culturais, desportivas e de solidariedade, no regime jurídico que caso a caso se demonstre adequado, segundo critérios de equidade, bem como apoiando a revitalização de inúmeras sociedades recreativas, umas ao abandono, outras com défice de utilização.

-Participar activamente na revisão do PDM, intervindo de forma veemente nas soluções que o novo Plano de Urbanização de Sintra venha a considerar, bem como na articulação com a Parques de Sintra-Monte da Lua, DGPC, Misericórdia e demais instituições na busca de soluções de ordenamento do território e reabilitação urbana, onde a junta deve reivindicar um lugar e voz activa.

-Estimular o Voluntariado e o Apoio Social, tendo em conta a parcela relevante de idosos e cidadãos em risco de exclusão social e a sua canalização para actividades socialmente úteis.
-Informatizar os serviços e o atendimento, procurando que nenhum pedido formulado tenha resposta em prazo superior a 5 dias, com a desmaterialização dos processos até ao ponto que a lei em vigor o permita.

-Assegurar que as populações mais isoladas ou com problemas de mobilidade tenham acesso regular e próximo a serviços de farmácia, correios, multibanco, etc, com apoio directo ou recrutado pela junta em coordenação com os demais actores da vida autárquica.

Estes alguns dos tópicos que, com 58 anos de vida em Sintra, 30 de técnico municipal e mais de 13 de dirigente associativo na área da União das Freguesias de Sintra me parecem essenciais. E sempre ouvindo os envolvidos, com espírito de quem venha para servir e não para servir-se.


Do Barrunchal a Janas, de Lourel à Vila Velha, da Portela a S. Pedro ou da Abrunheira a Cabriz, mais de 30.000 cidadãos esperam por melhoria de respostas. Que este seja também o tempo de equacionar as perguntas, no quadro dum Poder Local activo e não reactivo, de proximidade, diálogo e eficiência.

domingo, 9 de julho de 2017

Philoronia ou a viagem dum jovem atlante


Estar dentro e olhar para dentro. Estar dentro e olhar para fora. Ser centro e periferia, emissor e recetor, nesta fluída dialética de pulsões explode a escrita de Carlos M. Ferreira, jovem de Fontanelas que no seu primeiro livro, Philoronia nos surpreende e delicia com textos eivados de lirismo, introspecção em forma de recado, fé militante e um humor fino e simples, assente na observação de um quotidiano cacofónico e disruptivo.
Nesta breve mas marcante viagem interior nele surpreendemos o pássaro que deixa enfim o exílio e sobre nós esvoaça, cavaleiro sem armadura mas dono do seu castelo, enfim alcançando o Parnasso. De máscara em máscara, patrulheiro de sombras, ei-lo chegado à primeira paragem da perturbante Viagem, para nela sair, lucidamente perdido no desfiladeiro lúdico.
Desnudada a alma no papel-confessionário, Carlos envia a palavra límpida e antes agrilhoada definitivamente ao seu destino, qual origami dos sentidos e paleta de cores em desordem. Contudo, nada atenuará o facto de que cada palavra nasce da tirania individual entrincheirada nas verdades e nos mundos individuais, oniricos e febris. O leitor pode nos seus textos descobrir mundos, estados de alma, intenções, divagantes emoções ou almas gémeas de mundos partilhados, mas só o autor, em segredo, guardará o enigma da escrita, ortónimo de personagens várias. E é aí que reside o eterno e renovado fascínio da escrita e o mistério da leitura.
Dizia Schopenhauer que viver é necessariamente sofrer. E escrever é libertar a coisa criada, e deixá-la partir ao seu destino, capturado por leitores nem sempre atentos e turvados pelo momentum do estado de espírito, atento e cúmplice, por vezes, distante e sem partilha dum concreto pathos, por outro.
Carlos M. Ferreira revela-nos em toda a sua trama as minudências dum ser aflito, mas, mais que aflito consigo mesmo, aflito com este mundo de aflitos, escrevendo para se rebelar perante o Mundo dos Homens, para no fim, nas entrelinhas, deixar no ar um auspicioso sinal de esperança, por muito que todos os escritos estejam capturados por palpitantes desabafos e reflexões, deixando transparecer a beleza de um ser humano atento e altruísta. É uma viagem espiritual pelas cinzas do Homem, onde o Autor ensaia reflectir sobre a dialéctica da positividade, qual obra de auto ajuda que no final a todos ajuda, discernindo entre sorte e destino, destino com sorte ou sem ela, no caminho da qual podemos criar o nosso próprio Deus, nas suas palavras. Por vezes dá-se o peito às balas, outras as costas às facas, na pulsão de jogos de sombras que projectam a gramática dos sentimentos e a geografia das emoções. Terá existido quem não foi?- serenamente grita Carlos, numa reflexão interrogativa e sentida. Rezar é dialogar. E no fim, lá estará ela, finistérrica e atlante, qual por do sol de Fontanelas numa tarde de Verão, aquilo que na Caverna do espírito todos almejam: a Luz.
Bem vindo à iniciática viagem pela Palavra.

quarta-feira, 21 de junho de 2017

A Batalha de Pedrogão



Favorecido por elevadas temperaturas e constantes mudanças de vento forte, com todos os corpos de bombeiros mobilizados, a zona Centro do país é pasto das chamas, destruidoras e cruéis, assassinas cruzando o ar, numa batalha que dura já há 5 dias, lançando cinzas e fumo a quilómetros, destapando um clarão enorme e infernal nas noites intermináveis, com as gentes, já habituadas ao fogo, atónitas por nunca em suas vidas haver visto tal coisa. Exaustos, rodeados de jornalistas-abutre capturados pelo cheiro a morte e dor, com o clarão laranja do apocalipse a dominar no seu belo horrendo, gritos lancinantes são abafados pelo fogo invasivo escondendo um Inferno que captura novos prisioneiros, impotentes anjos neste negro Junho. Pedrogão, Gois, Castanheira ganharam mártires e os homens, heróis. Até que Lúcifer, desperto, regresse, ameaçador e inclemente, faminto de carne esturricada e impotente, a juntar corpos aos inocentes da 236-1, de Pobrais ou Nordelinho.

A batalha ainda dura, mas, uma vez debelada, há que vencer a guerra do laxismo, da época de incêndios, da desorganização e dos lobbies. Há muito que arde, mas ainda há mais que cheira a esturro.

sexta-feira, 2 de junho de 2017

Alterações climáticas: We'll always have Paris





Até onde estarão os países dispostos a ir para respeitarem o compromisso que assumiram em Paris de limitar a subida da temperatura abaixo dos 2 graus Celsius relativos à era pré-industrial e a continuar os esforços para limitar o aumento da temperatura a 1,5 graus Celsius?
Quando relatórios das Nações Unidas voltam a lembrar a urgência em agir rapidamente para reduzir as emissões de gases com efeito estufa, defrontamo-nos com a nova doutrina Trump, que alega serem as alterações climáticas uma invenção chinesa e  nomeou para a Agência americana de protecção ambiental negacionistas das ditas alterações e defensor dos combustíveis fósseis.
Trump quer que os Estados Unidos se desvinculem do Acordo de Paris antes do fim do período de quatro anos que o país ficou obrigado a respeitar. Recorde-se que o acordo, assinado por 195 países, entrou em vigor a 4 de novembro de 2015, e recentemente líderes de 360 grandes empresas enviaram uma carta a Trump a pedir que respeite o Acordo de Paris.
Se até há pouco tempo, o clima era de satisfação por, finalmente, os dois maiores poluidores, China e Estados Unidos, terem chegado a acordo quanto às metas a cumprir para minorar os efeitos das alterações climáticas, agora já ninguém está seguro quanto ao futuro. Apesar de não ter poder para bloquear o cumprimento do tratado por parte de outros países ou alterar as regras do acordo, pode a nova administração americana optar por não o executar o que pode por em causa o objetivo de limitar o aquecimento global a um máximo de dois graus centígrados acima dos níveis pré-industriais.
Para não ter de esperar até 2020, Donald Trump pode sempre sair da Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre as Alterações Climáticas, que enquadra o acordo de Paris. No entanto, esta seria uma decisão polémica tendo em conta que se trata de uma convenção aprovada pelo Senado.
Quando é sabido que nos próximos 15 anos será preciso levar a cabo reduções sem precedentes nas emissões de gases com efeito de estufa e fazer esforços para resistir a aumentos dos impactos climáticos, são precisas estratégias nacionais até 2050, como aumento da ajuda financeira aos países em desenvolvimento, assistência técnica para a criação de uma política de incremento das energias renováveis, aposta em transportes alternativos e reflorestação do planeta.
O objectivo do limite de 2º C foi definido em 2009, em Copenhaga. Cumprir este objectivo será também particularmente importante para Portugal, onde, se não for invertido o actual ciclo de aquecimento global, a paisagem tornar-se-á globalmente desertificada até 2100.
Em Sintra, por exemplo,segundo o "Plano Estratégico do Concelho de Sintra Face às Alterações Climáticas" coordenado pelo prof. Filipe Duarte Santos, antevê-se que em meados do século XXI as temperaturas médias anuais subam1.7 a 3.3 °C, com maior ênfase no Verão (3.6ºC a 5.4°C em Julho) do que no Inverno (0.7 a 1.6 °C em Dezembro). No final do século a elevação da temperatura média anual pode chegar a 2 a 3°C acima do que são actualmente no Inverno e 5º a 10º C no Verão, com ondas de calor mais frequentes e noites tropicais em que poucas vezes a temperatura descerá abaixo de 25º C. A precipitação média no final do século baixará de 800 mm para 540 a 700 mm e a radiação solar aumentará até um máximo de 8%.
Apesar da vasta área florestal do Parque Natural Sintra-Cascais (3675 ha), o valor anual de sequestro é de cerca 53 500 toneladas de CO2, ou seja da ordem de 2% das emissões de gases com efeito de estufa (GEE) dos sintrenses (âmbito total). Segundo os autores do estudo, no caso específico de Sintra duas estratégias surgem como as mais adequadas para sequestro biológico de carbono: o aumento permanente da área florestada e do número de árvores de arruamento, e o aumento da duração média das árvores com vista à meta de longo prazo de sequestro de 8% das emissões de GEE. Recorde-se que Sintra faz parte desde 2015 do consórcio que irá desenvolver a metodologia do projeto ClimAdaPT.Local para aplicação a nível nacional das estratégias municipais para as alterações climáticas, sendo uma das autarquias que já têm estratégias próprias para os seus territórios.
Com Trump ou sem Trump, mas com um mundo mais perigoso e fragilizado, tal como no célebre Casablanca, “we’ll always have Paris”. Esperemos.



segunda-feira, 29 de maio de 2017

Um monumento aos bombeiros de Sintra!



Celebrou-se ontem o Dia do Bombeiro. Ora Sintra tem pergaminhos na criação de algumas corporações das mais antigas e valorosas do país. Desde logo a Associação de Socorros Mútuos 3 de Outubro de 1884, ou em 1885, quando uma comissão de sintrenses reunida no Jornal de Cintra, decide organizar um corpo de bombeiros. A 1 de Setembro de 1889 foi criada a Associação dos Bombeiros Voluntários de Sintra, e em 1890 os Bombeiros de Colares com a inauguração da "estação de incêndios", sendo seu primeiro comandante Eduardo Rodrigues da Costa. A 24 de Junho desse ano, é a Real Associação dos Bombeiros Voluntários de Sintra, sendo seu primeiro comandante João Augusto Cunha. A 1 de Novembro de 1891 surge a  Banda dos Bombeiros Voluntários de Colares, e em 1895 é a vez de Almoçageme ter um corpo de soldados da paz, num período em que o socorro e auxílio tiveram uma fase de expansão. Momento alto foi a realização em Sintra 27 de Agosto de 1905 do I Congresso-Concurso dos Bombeiros Portugueses, em Seteais, quando diversas corporações estavam já no terreno.
Durante o século XX, inúmeras foram as ocasiões em que abnegados voluntários acorreram a incêndios, inundações e acidentes, numa rede de solidariedade motivada pelo respeito pela pessoa humana, com realce para o famigerado incêndio na serra de Sintra de 1966 ou as cheias de 1967, e de que este ano passam 50 anos.
Sintra acolhe hoje também a Escola Nacional de Bombeiros, centro de qualidade na área da formação, por todo o concelho diversas corporações realizam trabalho social e cultural, apoio médico, desportivo e social, congregando populações e chegando em termos de proximidade onde muitas vezes o Estado prima pela ausência.
Daí a pergunta e o pedido: para quando um monumento no Centro Histórico de Sintra que reconheça a dívida de gratidão de que a nossa comunidade é devedora para com quem de forma tão altruísta a serve, à chuva e ao sol, sob o inferno das labaredas ou acorrendo à sinistralidade rodoviária, no salvamento nas praias e ribeiras ou ajudando as vítimas nos acidentes urbanos?
Um monumento ao Bombeiro de Sintra peca por tardio. Deixa-se pois o desafio a que a autarquia (Câmara e juntas) instituições locais e empresariais, e comunidade, se mobilizem para de forma perene deixar no terreno uma homenagem a quem mais que ninguém nas horas difíceis defende o nosso território e as suas gentes sempre que toca uma sirene, dispara um telefone ou alguém grita por auxílio.

quarta-feira, 24 de maio de 2017

Por um novo Instituto de Sintra







Na literatura e cultura portuguesas Sintra aparece com frequência na pena de poetas, estudiosos e visitantes. Já Camões dela fala em Os Lusíadas (Já a vista, pouco e pouco, se desterra/Daqueles pátrios montes, que ficavam/Ficava o caro Tejo e a fresca serra/De Sintra, e nela os olhos se alongavam/ Ficava-nos também na amada terra/O coração, que as mágoas lá deixavam/E já despois que toda se escondeu/ Não vimos mais, enfim, que mar e céu) e também Francisco de Holanda, Crisfal, Luísa Sigêa, Gil Vicente ou Sá de Miranda se mostraram atraídos pela sua serra lunar. É porém no período romântico que por influência dos poetas do lago e sob influência de viajantes como Beckford, Byron, Hans C. Andersen ou Lady Jackson que Sintra irrompe como local incontornável, e a prová-lo, as obras de Gomes de Amorim, Almeida Garrett, Eça de Queirós ou Castilho. E no século XX, Almada e Pessoa, Nunes Claro, Oliva Guerra, Francisco Costa, M. S. Lourenço, Maria Almira Medina. E vivos ainda Liberto Cruz, Miguel Real, Sérgio Luís Carvalho, Filomena Marona Beja, Jorge Telles Menezes, Raquel Ochoa.

Pode dizer-se que a presença de Sintra nestes autores é muitas vezes incidental: meras sete linhas no Child Harold’s Pilgrimage de Byron ou umas frases soltas em Andersen, um percurso de Chevrolet em Pessoa ou os olhos de um gigante em Almada, o Lawrence e as pipas de Colares no Eça, a introspecção de sentimentos em Francisco Costa, Maria Almira ou Nunes Claro. Mas também na Casa Branca de Jorge Menezes, nos seus Novelos de Sintra, na chegada a Lisboa, avistando a Roca, do Julinho de A Voz da Terra de Miguel Real, no Anno Domini 1348 e os dramas do tabelião João Lourenço, de Sérgio Luís Carvalho, nos dramas sociais na Messa de finais do século XX de Bute daí Zé! de Filomena Marona Beja. Será isto suficiente para assinalar a existência de uma literatura de Sintra, ou serão afinal meros apontamentos de Sintra na literatura?

Em Sintra, a literatura é sobretudo apologética de um espaço cénico predominante, seja para lhe exaltar a paisagem, as plantas, as lendas e mistérios, seja como complemento de histórias com outras geografias, local para escapadelas dos dandys de Lisboa com suas Lolas espanholas, no século XIX, e igualmente refúgio esporádico de outros mais recentes (José Gomes Ferreira, Mário Dionísio, Vergílio Ferreira, etc).

Há porém os publicistas e historiadores, esses sim mais perenes: do Visconde de Juromenha a João António Silva Marques, de José Alfredo Costa Azevedo a Vítor Serrão, Cardim Ribeiro, João Rodil ou Teresa Caetano, Luciano Reis, Eugénio Montoito, Samuel Vicente, Jorge Trigo, Hermínio Santos, Almeida Flôr ou Carlos Manique da Silva, a quem a investigação e estudos sintrenses muito devem, e hoje sem um espaço de divulgação permanente, depois das efémeras experiências da Vária Escrita e da Sintria. E os autores de teatro: Nuno Vicente, João de Mello Alvim, José Sabugo, Rui Mário, entre outros, e novos poetas, como Bruno Vitória ou Filipe Fiúza. E pintores, arquitectos, analistas sociais, criadores de multimédia, programadores e facilitadores culturais. Se queremos uma Sintra com massa crítica, há que criar um espaço permanente onde sobre ela se reflita e debata, criando Memória e rotinando comportamentos pró-activos em prol da Sintra que pensa, sonha e, definitivamente, quer avançar.

quinta-feira, 18 de maio de 2017

Museus, construtores de narrativas



Hoje, Dia Internacional dos Museus, recordar as orientações da UNESCO de 2015- a Recomendação Relativa à Protecção e Promoção dos Museus e das Colecções, da sua Diversidade e do seu Papel na Sociedade, que questiona a função social dos museus, bem como a necessidade de um diálogo vivo entre órgãos directivos, agentes culturais e escolas em particular.
Apesar de algumas melhorias, a maior parte dos museus parece estar empobrecida. As construções estão muitas vezes num estado de conservação precário e as exposições, muitas vezes “fora de época”, oferecendo pouca informação contextual.
Os museus têm de ser espaços de construção de narrativas culturais capazes de atender um público diferenciado. Uma das características apontadas pela nova museologia diz respeito à preocupação crescente em responder às expectativas do público e oferecer práticas interativas como alternativa aos discursos fechados.
A introdução de novas práticas deve priorizar o respeito pela diversidade cultural, a integração nos museus das diversas realidades locais e a defesa do património cultural. Hoje, a tarefa educativa passou a ser compreendida a partir do diálogo com o público e das práticas interativas. As narrativas produzidas tornaram-se temas de debate que fazem parte da agenda política contemporânea, e os museus devem ser espaços de fortalecimento de auto-estima e criatividade, sem patrioteirismos ou regionalismos bacocos, mas lúcidos e de espirito crítico e aberto.
Os museus devem ser instrumentos que eduquem a partir da interação do visitante com o meio ambiente e por intermédio da utilização de instrumentos dinâmicos e plurais. Enfatize-se o potencial multidimensional da visita e os processos afetivos e sensório-motores, evitando-se disposições lineares, factuais e hierarquizadas. Além disso,faz parte de práticas desenvolvidas nos museus a observação constante da resposta do visitante. O processo de avaliação do desempenho de cada museu deve ser recorrente, transparente, com frequente reavaliação por recurso a análises SWOT. Há que encontrar um discurso próprio e garantir autonomia em relação a grupos financiadores.
Em Sintra, para lá dos espaços musealizados das quintas e palácios, há ainda um trabalho de fidelização de públicos e sua educação a realizar. Por um lado, a política das casas-museu parece claramente ultrapassada e contrária às tendências da museografia moderna, e casos como o dos museus Anjos Teixeira ou Ferreira de Castro atestam-no. Por outro, há que implementar os serviços educativos e realizar mais eventos em ligação com a comunidade, não numa lógica de supermercado de cultura mas de programação coerente e complementar. Museus, sim, mausoléus, não.

segunda-feira, 15 de maio de 2017

O novo paradigma das vitórias

É corriqueiro e quase inevitável falar e viver da crise, não se passa sem ela, nos jornais, nos cafés, no emprego, no parlamento,creio mesmo que se ela um dia porventura acabar, a sensação de orfandade será tão grande que se terá de arranjar logo outra, e se possível pio, para pôr à prova o nosso sadismo colectivo. Desde Alcácer Quibir que assim tem sido, é endémico. O certo é que vamos estando (aliás, em Portugal, país do gerúndio, nunca se vai, vai-se sempre andando ...)

A idiossincrasia dos povos tem destas coisas, mas analisando à lupa ,a História encarrega-se de provar que apesar do fado nacional (agora Património da Humanidade e world music) , sempre soubemos domar os Adamastores, fossem eles  o grande e desconhecido Mar-Oceano ou os mais prosaicos e invisíveis "mercados". Já vêm da época dos Descobrimentos os velhos do Restelo, contudo não deixámos de ousar lutar e ousar vencer, contra castelhanos, terramotos, franceses, ditaduras, e afinal ainda cá estamos, o país mais antigo da Europa e com as fronteiras mais estáveis, a 5ª língua mais falada em todo o mundo, em 32º no ranking mundial de 194 países ( com o detalhe de sermos dos mais pobres entre os ricos, mas ainda assim no clube...).Ponha-se os olhos em povos como o alemão, devastados por guerras que provocaram milhões de mortos e destruição em massa e  contudo sempre a renascer das cinzas. Temos sempre a tendência para achar que a culpa é “deles”, os que nos governam (porque se governam) mas “eles” somos nós, todos, no que temos de bom e mau, como qualquer outro país. O pessimismo é como o auto-golo, só serve para perder pontos.


Vem isto a propósito da responsabilidade que em minha opinião têm certas elites e certa opinião publicada nos estados de alma que moldam o carácter nacional dos portugueses. O pathos nacional tem sido marcado pelos vencidos da vida de várias gerações, desde o conformado "ainda o apanhamos" do Eça até essa peça sublime e igualmente derrotista que é a Mensagem, de Pessoa. Obras belas, plástica e literariamente, mas hinos à descrença, à resignação e ao fatalismo. Se olharmos com atenção, todos os grandes gurus nacionais são-no na medida em que se assumiram como profetas da desgraça, (os optimistas chamam-lhes "visionários...). Quanto mais baterem no ceguinho mais premiados e idolatrados, pois eles, premonitórios é que viram para lá da nuvem. Um exemplo: a nossa cena de comentadores, os ditos opinion makers. Quem são os mais convidados e “respeitados”? os que autofagicamente anunciam a “piolheira” do país, os frustrados, os que querem  ajustes de contas com os adversários ou ex-amigos. Dê-se-lhes uma caneta ou um teclado e ei-los a zurzir inflamados a desgraça nacional e o fado de ser português, o "isto só cá", como se todos soubessem em profundidade como é exactamente "lá". Já Almada dizia que o pior de Portugal eram os portugueses, e eles aplaudiram claro, porque nunca é nada "connosco", mas tudo com" eles".
Faça-se uma experiência: ouçamos um dia inteiro iluminados como  Medina Carreira, José Gomes Ferreira ou Vasco Pulido Valente, se não estiver deprimido e enterrado em whisky, e veja-se qual o contributo positivo destes profetas da desgraça para melhorar o estado de coisas, profetas da desgraça depois da desgraça ocorrer, na onda do “estava-se mesmo a ver, eu avisei”, mas entretanto nada viram e nada avisaram.

Entre nós, as veneradas elites pensadoras são sobretudo faladoras, e sobretudo maldizentes, imensamente responsáveis pela degeneração da ideia de Portugal, e pouco ou nada mudou desde a fuga de D. João VI para o Brasil e o ciclo de declínio que endémico se seguiu. Porém, mal ou bem cá vamos, e sobretudo, cá estamos, apesar de sermos o país que nasceu com o filho a bater na mãe. Somos uma matriz da civilização ocidental e um berço de culturas, (eu sei, cheira a discurso de 10 de Junho, mas é verdade!), O que faria então se nos entendêssemos sobre as grandes questões, separando a árvore da floresta e fazendo planos para a floresta.

Temos a particularidade de estarmos sempre desavindos uns com os outros e desconfiarmos mais depressa de outro português do que do primeiro estrangeiro desqualificado que nos metam na frente. Como aquele velho anarquista que dizia: há governo? Sou contra!

Com crise ou sem crise, os povos não acabam, apesar de poder suceder como nos vírus da gripe, com o tempo estes degenerarem noutros, com novas roupagens e atitudes, e a geração que abriu o século XXI poder vir a sair mal na fotografia da História. Mas depois do tempo, tempo vem, e um pouco de azul sempre é melhor que o cinzento, apesar de por vezes pairar o negro nos espíritos. Como um dia disse o general De Gaulle, "o fim da esperança é o começo da morte". E aos velhos do Restelo, uma temporada nas termas não faria nada mal...O país de Camões, Vasco da Gama, Padre António Vieira ou Eça de Queirós é hoje o país dos Ronaldos e dos Salvadores, mas também dos Sizas e dos Marcelos, dos pastéis de nata e da Web Summit, do João Sousa e da Jessica Augusto, do António Zambujo e da Mariza. E então?
Acabaram as vitórias morais, depois de anos de chumbo, estamos estranhamente moralizados para as vitórias, e para uma nova normalidade até agora anormal e estranha.
Não passámos de bestas a bestiais, mas que faz bem, faz...Não somos o Portugal do Império, das Índias e Brasis, mas também não somos o das varinas descalças, vielas sujas e da mala de cartão, celebrando terceiros lugares como épicas vitórias. É o tempo de juntar trabalho e organização, talento e iniciativa, orgulho e determinação. E aí sim, terá valido a pena.