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domingo, 9 de julho de 2017

Philoronia ou a viagem dum jovem atlante


Estar dentro e olhar para dentro. Estar dentro e olhar para fora. Ser centro e periferia, emissor e recetor, nesta fluída dialética de pulsões explode a escrita de Carlos M. Ferreira, jovem de Fontanelas que no seu primeiro livro, Philoronia nos surpreende e delicia com textos eivados de lirismo, introspecção em forma de recado, fé militante e um humor fino e simples, assente na observação de um quotidiano cacofónico e disruptivo.
Nesta breve mas marcante viagem interior nele surpreendemos o pássaro que deixa enfim o exílio e sobre nós esvoaça, cavaleiro sem armadura mas dono do seu castelo, enfim alcançando o Parnasso. De máscara em máscara, patrulheiro de sombras, ei-lo chegado à primeira paragem da perturbante Viagem, para nela sair, lucidamente perdido no desfiladeiro lúdico.
Desnudada a alma no papel-confessionário, Carlos envia a palavra límpida e antes agrilhoada definitivamente ao seu destino, qual origami dos sentidos e paleta de cores em desordem. Contudo, nada atenuará o facto de que cada palavra nasce da tirania individual entrincheirada nas verdades e nos mundos individuais, oniricos e febris. O leitor pode nos seus textos descobrir mundos, estados de alma, intenções, divagantes emoções ou almas gémeas de mundos partilhados, mas só o autor, em segredo, guardará o enigma da escrita, ortónimo de personagens várias. E é aí que reside o eterno e renovado fascínio da escrita e o mistério da leitura.
Dizia Schopenhauer que viver é necessariamente sofrer. E escrever é libertar a coisa criada, e deixá-la partir ao seu destino, capturado por leitores nem sempre atentos e turvados pelo momentum do estado de espírito, atento e cúmplice, por vezes, distante e sem partilha dum concreto pathos, por outro.
Carlos M. Ferreira revela-nos em toda a sua trama as minudências dum ser aflito, mas, mais que aflito consigo mesmo, aflito com este mundo de aflitos, escrevendo para se rebelar perante o Mundo dos Homens, para no fim, nas entrelinhas, deixar no ar um auspicioso sinal de esperança, por muito que todos os escritos estejam capturados por palpitantes desabafos e reflexões, deixando transparecer a beleza de um ser humano atento e altruísta. É uma viagem espiritual pelas cinzas do Homem, onde o Autor ensaia reflectir sobre a dialéctica da positividade, qual obra de auto ajuda que no final a todos ajuda, discernindo entre sorte e destino, destino com sorte ou sem ela, no caminho da qual podemos criar o nosso próprio Deus, nas suas palavras. Por vezes dá-se o peito às balas, outras as costas às facas, na pulsão de jogos de sombras que projectam a gramática dos sentimentos e a geografia das emoções. Terá existido quem não foi?- serenamente grita Carlos, numa reflexão interrogativa e sentida. Rezar é dialogar. E no fim, lá estará ela, finistérrica e atlante, qual por do sol de Fontanelas numa tarde de Verão, aquilo que na Caverna do espírito todos almejam: a Luz.
Bem vindo à iniciática viagem pela Palavra.

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